Meus três leitores sabem que não faria nada que os espantasse daqui. Infelizmente, sei que um deles pode não gostar de saber que eu gostei do surto de megashows no Brasil desta semana, com direito a Rollings Stones e U2.
Minhas desculpas pela sinceridade. ;)
Bem, eu queria que o César Maia (prefeito do Rio) trouxesse o U2 em vez daquelas lesmas velhas e rastejantes que se apresentaram em Copacabana. No entanto, sei que eu sou quase um voto nulo no meio cristão. A maioria gospel prefere que a prefeitura banque um festival gospel, com aquelas cantoras breganejas.
Se eu tivesse que escolher entre shows gospel e um show do U2, ficaria com a segunda opção. Sabe por quê? Em primeiro lugar, sou fãzaço do U2 e para vê-los pessalmente eu seria capa de fingir que não sei que esses grandes eventos geralmente são bancados em parte pelo governo (leia-se nós, contribuintes) e que são ótimos para estimular o turismo e fazer uma cortina de fumaça nos erros dos governantes. E em segundo lugar, música evangélica de massa tem muito movimento pra pouco efeito prático no cristianismo individual.
Por isso, meu leitor rebelde, o seu "delete" do blog é serventia da casa. Vá se catar nas chuvas, correntes e unções da lagartixa que acometem sua igreja! :D
Enfim, eu estou cutucando essa ala popular da música evangélica (leia-se MK, Gospel Records e Line Records) porque tem gente crente nesse Brasil de meu Deus que prefere ouvir música evangélica ruim em vez de curtir cantores que têm algo bom a dizer mas não são do tipo religioso.
É um separatismo burro, que adora odiar a cultura do "mundo" e se contenta com o mal-feito, o mal-acabado e o mal-dito. Basta ter uma menção leve a "Deus" que vale tudo, até Louvor Erótico (aquele gênero de balada romântica gospel que você pode cantar pra Deus e pra sua esposa sem mudar uma palavra da música, tamanha a ambiguidade dos termos).
Confesso que já fui mais edificado por certas músicas seculares do que por pregações gritadas de muito pastor por aí. Toda verdade é verdade de Deus, e a sabedoria também clama nas ruas. Basta parar e ouvir.
Eu sigo uma paráfrase pessoal de um dito do apóstolo Paulo: "Ouçam todas as músicas; Cantem e toquem o que for bom". E o show que Sampa vai presenciar está repleto de coisas boas. Além da originalidade do som que criaram nos anos 80, o U2 possui um enorme engajamento em causas sociais. O líder da banda, Bono Vox, comenta que se sente um reinvindicador social disfarçado de popstar. O palco e as tietagens são o preço a se pagar para poder fazer suas campanhas contra a fome e a AIDS na África.
Se não bastasse isso, as letras das músicas refletem uma cosmovisão cristã. É fácil perceber isso em canções como "I'm Still Haven't Found What I've looking For" , "Crumbs from Your Table" e "Where the Streets Have no Name".
No CD mais recente, "How to Dismantle a Atomic Bomb", há também a declaradamente cristã "Iahweh", que é uma das orações mais lindas que já ouvi ("Take these hands - Teach them what to carry [...]/Take this mouth so quick to criticise/Take this mouth, Give it a kiss/Yahweh, Yahweh/Always pain before a child is born/Yahweh, Yahweh/Still I'm waiting for the dawn".)
Para os irmãos paulistas que compraram o ingresso e são maduros o suficiente para assistir a um show do U2 como ato de adoração a Deus, uma boa noite de segunda.
E para os que (como eu) vão assistir pela TV, também. :D
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Marcadores: cultura, quadrinhos
Não é segredo pra ninguém que sou viciado em histórias em quadrinhos. Sou "rato de sebo", e vivo procurando livros de tiras de jornal, quadrinhos europeus, quadrinhos adultos da VERTIGO e, é claro, os tradicionais super-heróis.
Uma das tiras que eu mais gosto é MAFALDA, do cartunista argentino QUINO. Essa menininha nascida nos anos 60 aparenta ser mais uma personagem fofinha e engraçadinha, mas na verdade é uma baita contestadora que não entende a Guerra do Vietnã, o porquê da pobreza, e vive desconfiada das ações da china comunista.
Na sua turma de amigos tem tipos fantásticos: um filho de comerciante que já pratica o capitalismo selvagem desde o berço (Manolito), uma amiga fútil que só pensa em casamento e nas delícias da burguesia (Susanita) e um amigo sonhador e idealista (Filipe). Os pais dela se viram nos trinta para dar conta das perguntas inusitadas da menina.
As histórias altamente politizadas e inteligentes da Mafaldinha conseguem atingir mais aos adultos que às crianças. Ou seja, de "Turma da Mônica" essa tira não tem absolutamente nada.
Normalmente eu defendo o Brasil feito torcedor (afinal, sou membro da Brigada Policarpo Quaresma :D ), mas em de matéria de quadrinhos a Argentina está anos-luz à nossa frente. Enquanto temos apenas uns poucos talentosos que se arriscam nessa mídia, eles têm um polo produtor de quadrinhos altamente organizado e criativo.
Isso se deve, entre outro fatores, ao enorme envolvimento político dos argentinos. Qualquer passeata ou greve brasileira é fichinha perto de um panelaço corriqueiro por melhores condições de trabalho na Argentina.
Num país em que a população se engaja politicamente, é natural que os meios de comunicação e as artes em geral tenham mais conteúdo. É só olhar para a produção cultural brasileira na época da ditadura. Comparar as letras de um Chico Buarque nos anos de repressão com as atuais baladas sem mensagem da MPB dá até vergonha.
Eu tenho orgulho de ser brasileiro quando o assunto é música ou futebol, mas a Argentina tem muitas virtudes que eu gostaria de importar. Pena que essas coisas a gente não pode contrabandear de ônibus por Foz do Iguaçu. :)
Taí uma Argentina que eu queria Brasil.
Sempre que eu puder (leia-se "sempre que eu estiver com preguiça de escrever alguma coisa decente" :D ), postarei alguma tira dela aqui no blog.
Para ler a tira, basta clicar na imagem.
[Un hola para mis hermanos argentinos cristianos Claudio Martos y Marcelo "Tchu-Tchi" Martos]
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Dia 23 de Novembro deveria ser feriado! Nesta data, em 2005, um comerciante desconhecido decidiu aportuguesar a marca Tupperware nos anúncios de sua loja. É, aquela dos potinhos plásticos que mãe usa para guardar sobras de comida.
Decidido a acabar com o sofrimento dos brasileiros que não se deixam dominar pelo inglês, esse grande patriota quebrou a patente etimológica da empresa. Agora Tupperware é TAPOÉ!!!
Como tenho consciência de quase ninguém lê as bobagens que eu posto aqui, vou contar um segredo. Mas tenham cuidado, meus únicos três leitores! Se repetirem em voz alta o que revelarei nas próximas linhas, farei com que vocês se assassinem-se a si mesmos, e terei que fechar essa birosca por falta de quorum.
Lá vai: eu faço parte de uma sociedade secreta que dedica suas reuniões a planejar o fim dos estrangeirismos desnecessários no Brasil. Essa maçonaria brazuca foi fundada pelo ilustre Policarpo Quaresma, herói da cultura nacional. Ela é tão secreta que nem eu mesmo sei o nome dela, mas os que participam do baixo clero da irmandade (como eu) a chamam de "Brigada Policarpo Quaresma". A sociedade atualmente possui membros famosos, como o cartunista Laerte e o deputado Aldo Rebelo. Este dono de loja é mais um que se uniu à nossa causa.
Se tivéssemos mais cidadãos como ele, acabariam os outlet, sale, delivery, pet shop, megastore e outras facadas no orgulho nacional. Os adolescentes confirmariam presença numa festa dizendo "oquêi". Casais não teriam mais hobbies em comum, e sim "lazertimento". Best-sellers teriam na capa um selinho dizendo que aquele era um verdadeiro "vende-pra-dedéu", e os profissionais do marketing trabalhariam no ramo de "compra e venda de ilusões".
Enfim, tríplices reverências ao já ilustre Comerciante Desconhecido. Farei de tudo para que coloquem um monumento em sua homenagem no lugar daquela Estátua da Liberdade de araque que habita a frente de um certo shopping-center na Barra da Tij... Peraí, eu falei "shopping-center"???
(barulho de porta se abrindo e rangendo)
Quem são vocês? Por que estão de capuz e com essa foice na mão? Não, vocês entenderam errado! Não disse "shopping"! Eu quis dizer "maloca de escambo"!!!
O quê? Não, infiel não! Foi só um deslize! Juro! Prometo-que-eu-como-jaca-todo-dia-e-passo-a-só-abastecer-nos-postos-BR-mas por-favor-não-me-m...
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Em homenagem ao lendário Valdemir Bronca (mascote da Brigada), desejo um feliz Dia do Índio a todos!
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Esse é um dos livrinhos mais criativos dos úiltimos tempos. A autora é Adriana Falcão, roteirista da Comédia da Vida Privada e de A Grande Família, e chega a ser genial de tão simples. É o tipo de livro que consegue a proeza de fazer pensar e divertir ao mesmo tempo.
Numa brincadeira com os sentidos e sons das palavras, ela cria novas e próprias definições. Sabe aqueles comentários as que as crianças soltam de vez em quando, desprovidos de maldade e verdadeiros até a medula? Os verbetes do livro são assim.
A idéia em si não é totalmente nova. O Cristóvam Buarque já havia escrito um dicionário "alternativo" com uma abordagem mais política e mostrando os horrores e injustiças da globalização (Admirável Mundo Atual, da Geração Editorial). A originalidade desse livretinho está na motivação que ele deixa em quem lê. Como as palavras não dizem tudo, cada um de nós precisa criar um dicionário pessoal sobre a vida. A semântica social atual nos empurra goela abaixo que "casamento" é um prisão. Precisamos de coragem para repensar os verbetes atuais, e redescobrir a vida a dois, por exemplo, como uma viagem deliciosa.
O livro é uma mistura de poesia, crítica social e humor que raramente a gente encontra no mesmo lugar. A idéia de dicionarizar a vida é tão encantadora que vale a pena virar filólogo (estudioso de palavras). Nem que sirva apenas para que outros aprendam a viver, e descubram o verdadeiro poder da Palavra.
Taí outro livro que releio constantemente para decorar até que ele faça parte de mim (por falar nisso, será que alguém pode me lembrar ainda essa semana de comentar sobre o livro FAHRENHEIT 451, do Ray Bradbury? Agradeço).
Aqui vão algumas das pérolas:Salário
Se vocês quiserem mesmo que eu poste mais defiinções desse livrinho, basta pedir com jeito aí nos comentários. Senão, vou entender que vocês fazem parte da ala de humanos que pensam apenas nas coisas tidas como "sérias". Para esses, eu recomendo o Aurélio. :)
Pagamento de serviço que, por um enigma qualquer do Universo, o dos outros é sempre maior que o seu.
Fidelidade
Um trato que você faz com você mesmo de cumprir os tratos que você fez com os outros.
Casamento
Junção de duas pessoas por um tipo de liga que não tem nada a ver com cola e até hoje não se tem notícia da receita.
Química
Coisa que deve ter acontecido entre Romeu e Julieta e continua sendo matéria de estudo.
Insensatez
Tipo de bobagem que quase sempre é gostosa
Rabisco
Obra de arte de filho que mãe vai guardando uma por uma, e haja gaveta.
Obedecer
Aceitar que o seu desejo nem sempre pode ser o primeiro da lista.
Aviso
Frase que costuma andar com o verbo servir atrasado e por isso só serve quiando não serve mais.
Ousadia
Quando o coração diz para a coragem "vá" e a coragem vai mesmo.
Idade
Aquilo que você tem certeza que vai ganhar de aniversário, queira ou não queira.
Intuição
Aviso que não avisa que vai avisar e vem sem certificado e garantia
Hierarquia
Uma escada de importância onde os que estão lá em cima determinam em que degraus devem ficar os lá debaixo.
Grade
Que serve pra prender todo mundo - uns dentro, outros fora
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Na semana passada estive em Sampa, para começar a pré-produção do meu primeiro CD com músicas inéditas. Fiquei hospedado na casa da família de um dos produtores, Davi Julião. Com bom humor e um coração enorme, eles me "adotaram" desde 2003, quando ainda estagiava em São Paulo.
O primeiro nó foi selecionar as músicas do CD. A gente se empolga e tem vontade de pôr umas 18 para aproveitar a oportunidade. Mas graças a Deus pelo outro produtor, Cláudio Martos. Ele levou 3 anos para gravar um CD de 15 músicas, e me recomendou escolher menos músicas para terminar logo as gravações e não empurrar a coisa com a barriga. No fim, fechamos a conta em 13 músicas. Quase metade delas inédita.
Depois de reduzir o número de canções, o passo seguinte foi a gravação da DEMO (um CD demonstrativo). Cansado, sem aquecer a voz mas empolgado, lá fui eu. Em 6 horas, gravamos 17 registros. Algumas das 13 músicas foram gravadas várias vezes, em tons diferentes. Com o CD DEMO pronto, os músicos envolvidos poderão conhecer as canções e planejar o arranjo de suas partes.
O trabalho final foi selecionar algumas músicas de meus artistas preferidos para montar um CD de referência. O instrumentistas do CD vão receber uma cópia cada, para entenderem o clima que queremos para o CD. Moska, Joyce, Guinga, Milton Nascimento, Ivan Lins e Leila Pinheiro foram os escolhidos, e são parte das minhas influências musicais. Aos poucos, vou comentando aqui sobre a obra de cada um deles.
E de brinde, disponibilizo aqui algumas das músicas do CD de referência, para dar uma idéia da cara do meu CD. Óbvio que não vou me limitar a copiar os timbres e levadas destas músicas, mas juntas elas traduzem um pouco da sonoridade que me agrada.
Basta clicar no nome da música, e ela começará a tocar sozinha.
Um Móbile no Furacão (Moska)
Guia de Cego (Guinga)
O Chinês e a Bicicleta (Joyce)
Samba de um Breque (Leila Pinheiro)
Mulher Indigesta (Ivan Lins)
Onde Anda a Onda (Moska)
Para Sempre Nunca Mais (Moska)
Valsa para Leila (Leila Pinheiro)
Cedo ou Tarde (Moska)
Gatas Extraordinárias (Cássia Eller)
Tristesse (Milton Nascimento)
Imã (Moska)
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Quarta-feira, sala de estar. Um típico fim de noite, com TV ligada pra desestressar, e à minha frente um kit de tarraxas novas para parafusar no violão.
Lutei por mais de uma hora com parafusos minúsculos que resistiam à faca que fazia a vez de chave de fenda. Logo deu meia noite, e vi que não era só meu violão que estava com parafusos a menos. Surge na minha frente o programa de fim de noite da Igreja Universal na TV Record de Curitiba, "Ponto de Luz". O tema era: "TROQUE SEU ANJO DA GUARDA!". Como heresias na TV prendem a atenção de qualquer um que goste de teologia, lá fiquei ouvindo com curiosidade.
O apresentador era um pastor curitibano que falava como o Edir Macedo. Citando os textos de Daniel 10 e Salmo 91, afirmou que existem anjos fracos e anjos fortes. O profeta Daniel teria um anjo do tipo fraco. Esse mensageiro divino raquítico e franzino foi despachado para a Terra assim que Daniel começou a orar pedindo uma "luz".
Mas o Príncipe da Pérsia, um demônio experiente e mestre em capoeira, surgiu na sua frente. Como todo ser maligno, ele impediu a passagem do pobre anjo e o chamou para a briga. O anjo peso-pulga não dava conta sozinho da potestade, e a briga durou 21 dias. Até que chega um anjo mais poderoso para ajudá-lo, Miguel.
Juntos, eles dão um chega-pra-lá na potestade da malandragem, e o anjo molenga é liberado para entregar sua mensagem a Daniel. O pastor continuou, dizendo que a Palavra de Deus nos manda dar ordens aos anjos a nosso respeito. E onde estariam os anjos fracos? O pastor respondeu! "Talvez o seu anjo esteja lá no céu, cansado, só tocando harpinha, e não briga por você! Troque de anjo, e sua vida irá mudar!"Meus risos de deboche deram lugar à indignação enquanto pessoas ligavam desesperadas para o programa, com problemas no casamento e outras dores humanas.
E qual era o conselho do pastor ?!? "TROQUE SEU ANJO DA GUARDA!".
Meus amigos mais chegados sabem que sou dado a surtos de impulsividade quase inexplicáveis. Indignei-me com todo esse engano, e decidi ligar para o programa. Não para bater-boca, mas para lançar questionamentos na cabeça dos que estavam ouvindo esses absurdos.
"Espera um pouco que tem 2 pessoas na sua frente!", disse o atendente do telefone, enrolado com mil ligações. Aguardei na linha durante uns minutos, até que percebi que estava ouvindo no telefone os mesmos sons saídos da TV. Havia chegado a minha vez de falar ao vivo.
(continua a seguir)
Marcadores: cotidiano, cristianismo, devocional, ministério
- Alô? Qual é o seu nome?
- Cláudio!
- Você fala de onde, Cláudio?
- Do Portão [bairro de Curitiba].
- E aí, você quer trocar de anjo?
- Não sei, Pastor. Eu li esse salmo que o senhor citou, o 91, e o que diz lá é que DEUS é quem dá ordens aos anjos a respeito de alguém, e não a gente.
- Mas veja bem. A palavra de Deus é clara: "Dará ordens aos anjos a teu respeito! É você que dá ordem a eles!
- Eu nunca ouvi falar disso na vida, pastor!
- (Rosto de satisfação) Olha, é o que a Palavra está dizendo! Existem anjos que estão cansados, fracos, e acabam não cuidando da gente! Nós precisamos trocar de anjo. E precisa ser por um anjo tipo Miguel, bem forte e poderoso!
- Mas se os anjos estão fraquinhos e não estão mais cumprindo o serviço deles, isso é egoísmo e pecado. E os anjos que pecam viram demônios! O que eu faço??? Meu anjo da guarda vai virar meu demônio da guarda?!?!?
- Não, meu amigo! Vou explicar! (folheia a Bíblia procurando um [pre]texto bíblico)
E tome mais explicações descabidas. Uma moça testemunhou que já demitira seu anjo da guarda antigo e que estava satisfeitíssima com o seu novo Arcanjo Zero Km. Contive minha impulsividade para não atribuir essa conversa louca ao efeito de alucinógenos. Continuei manifestando minhas dúvidas-certezas, até que ele encerrou:
- E aí, você vai estar com a gente nessa quinta-feira na Catedral da Fé pra trocar de anjo?
- Não sei, pastor. Não sei...
- (Riso leve, e um ar de complacência) Você é quem sabe. Um abraço! Deus te abençoe!
- Amém, Pastor!
Senti vergonha de ser chamado de evangélico. De ser contado como "farinha do mesmo saco" que eles. Mas Deus se entristece mais que eu. É a vida dEle que eles transformam num circo.
E de repente me vi num espelho. Um cara que não dá ouvidos para absurdos como trocar de anjo da guarda, mas que também não se oferece para ser o mensageiro de Deus para estes pequeninos. Gente cansada, oprimida, destruída. Que falta faz um anjo! Anjos cuja força vem de uma vida gasta na fé e no amor. Anjos que levem perdão, consolo, oração e choro pelo erro e suas consequências.
Eu deveria ser esse anjo, mas sou fraco. Vivo para mim e não percebo pessoas desesperadas como as que ligam para programas de TV, apenas para serem ouvidas por alguém que não sabe do que está falando. E para os desesperados, quem tem um ouvido é anjo. E um anjo "forte". Mesmo que este tenha uma idéia quase espírita sobre o cristianismo.
Incrivelmente, isso não foi o que mais me incomodou no momento. Apenas a teologia distorcida me machucou os ouvidos.
Coloquei as novas tarraxas no violão, e o som saiu desafinado. As cordas ainda não acostumaram com o novo sistema. E assim como neste triste caso entre cristãos sérios e estelionatários da fé, a culpa da desafinação não é só das tarraxas novas.
É de quem deixou as antigas tanto tempo quebradas.
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Ontem dei de cara com um vídeo assustador. E como todo bom filme de terror no estilo Poltergeist, a estrela é uma garotinha.
Ana Carolina Dias, uma pregadora-mirim da Assembléia de Deus, esbraveja e grita no melhor estilo Silas Malafaia, com apenas 8 anos. Numa idade em que devia se dedicar à descoberta da vida, à brincadeira e aos relacionamentos, essa menina vai de igreja em igreja pregando uma mensagem bem decorada, repleta de chavões e usando gestos típicos de adultos. Até CD ela já gravou!
Enfim, nesse vídeo ela faz uma associação mirabolante entre as 5 pedras que Davi colhe no rio para matar Golias com os 5 títulos messiânicos descritos em Isaías 9.6. É isso mesmo, os clássicos "Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno e Príncipe da Paz" (de onde ela tirou isso, só Chuck Norris sabe).
Sem contar que a maioria dos teólogos concorda que "Maravilhoso Conselheiro" é um título só, num total de 4 títulos messiânicos. Ou seja, uma das pedrinhas que Davi catou não estava ungida pelo título que está faltando na conta da menina. Ainda bem que ele acertou a testa do grandão na primeira tentativa!
Em uma entrevista para a revista Época, a própria pimpolha diz: "[Meu ministério] é um dom de Deus. Não vou entrar em detalhes, porque os menos esclarecidos não entendem."
Casos assim me enchem de temor, pois não quero ser cético nem ingênuo. Lembro que Jesus aos 12 anos causava muito mais espanto aos olhos dos líderes das sinagogas. Mas há uma diferença fundamental: Ele possuia mais do que eloquência fantástica e chavões. Sua interpretação da Escrituras era cheia de sabedoria e coerência, até mesmo para os padrões dos escribas PhDs da época.
Não é o caso de Ana, que interpreta a Bíblia e prega com os mesmos trejeitos de alguns pastores pentecostais que não tiveram acesso a um estudo cuidadoso da Palavra ("alguns", não todos. Muitos honradamente aliam piedade à inteligência). Ela parece uma criança superdotada, mas é óbvio que as igrejas e gravadoras já estão usando a menina para proveito próprio. Seja para arrebanhar montes de pessoas ou de dinheiro.
Aqui na minha cabeça está difícil chegar num consenso. Prefiro esperar a adolescência de Ana chegar e ver se o borbulhar dos hormônios não fará dela uma mulher frustrada pela perda da infância. Sei que Deus escolhe o quem, o quando e o onde de suas manifestações, mas por enquanto eu nem sei o que pensar.
Tire suas conclusões, assistindo você mesmo o vídeo de uma pregação de Ana Carolina.
Só sei que está cada vez mais difícil diferenciar as coisas realmente divinas das bizarras. E não é culpa da pobre Ana Carolina. O circo de horrores já acampou nas igrejas brasileiras há muito tempo.
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